Postado por Julia Pierri em 30 de Outubro de 2008 as 16:14
Última Parada 174
Título Original: Última Parada 174 (Brasil,2008)
Gênero: Drama
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Bráulio Mantovani
Produtoras: Moonshot Pictures, Movie&art, Globo Filmes, Mact Productions, Paramount Pictures
Elenco:
Michel Gomes (Sandro)
Cris Viana (Marisa)
Marcelo Mello Jr (Alê Monstro)
Gabriela Luiz (Soninha)
Anna Cotrim (Walquiria)
Tay Lopes (Jaziel)
A história de Sandro Nascimento, o menino de rua carioca que foi protagonista do caso do seqüestro de ônibus que parou o Brasil em 12 de junho de 2000, já foi contada à exaustão: Primeiro no banquete macabro do qual se alimentam os telejornais, depois no documentário corajoso de José Padilha, “Ônibus 174”.
O filme do diretor Bruno Barreto, “Última Parada 174” vem trazer uma nova interpretação sobre um fato que de tão real e cru manchou para sempre a história da crônica policial carioca. Veio num momento oportuno, quando outro caso de violência atraiu as atenções do país e mostrou o despreparo da polícia em casos extremos. Qualquer semelhança coma história da menina Eloá não é mera coincidência.
Claro que quando ouvimos falar de mais um filme girando em torno do trio favela-desigualdade social-violência, é inevitável a sensação de esgotamento. “Tropa de Elite” foi um fenômeno de popularidade, mas que aparentemente havia saciado o apetite do público pelo gênero, chegando quase a causar uma indigestão. Não sei se a melhor, mas pelo menos a mais criativa definição do gênero veio de Paulo Camargo, colunista do jornal paranaense Gazeta do Povo: farofavela.
Não fosse o roteiro cuidadosamente costurado de Bráulio Mantovani e a interpretação impecável de Michel Gomes no papel de Sandro, Última Parada poderia ser apenas mais do mesmo. Por um lado, Última Parada não inova no tema. Mas seu grande trunfo está na forma que o roteirista escolheu para preencher as lacunas de uma vida com uma trama que conecta personagens fictícios e ao mesmo tempo comuns, embora desconhecidos do grande público que lota as salas de cinema. Esse filme é do Bráulio, ainda que não tenha o apelo eletrizante de Cidade de Deus, seu melhor trabalho. De fato, Última Parada não é melhor que os dois expoentes máximos dessa tendência.
Temos que perdoar as licenças poéticas do diretor Bruno Barreto. Este filme não é um documentário. Tampouco é uma tentativa de expiação de culpa ou de análise do sistema que oprime e mata. Barreto não tenta explicar o que não tem explicação e não tenta justificar o que não tem justificativa, apesar de uma leve tendência à vitimização de Sandro, confirmado até mesmo por um dos diálogos que ele mantém com uma das reféns dentro do ônibus. Ainda assim, quem pode condenar o diretor? Sandro viu a mãe ser esfaqueada até a morte quando tinha apenas seis anos, para mais tarde sobreviver à Chacina da Candelária, onde viu vários de seus companheiros de rua, muitos deles crianças serem executadas enquanto dormiam. O fim trágico de uma criança com a psique fragmentada e marcada pela desumanidade é chocante, mas para qualquer um que esteja familiarizado com o que acontece nas ruas do Rio de Janeiro, não é de forma alguma surpreendente.
Vale lembrar que a revista Variety publicou duras críticas ao filme escolhido pelo Brasil para concorrer a uma vaga no Oscar. Segundo a publicação, o filme pode fazer sucesso no Brasil, mas não lá fora. Pelo que dizem, não vai longe. Como o Oscar, o veículo não é parâmetro de qualidade. Tropa de Elite foi destruído pela revista, apenas para pouco tempo depois levar o Urso de Ouro em Berlim. Na verdade, o filme é um dos mais controversos em termos de crítica e de público dos últimos tempos. E apesar da divulgação maciça, na sessão que peguei, numa tarde terça-feira, haviam quatro gatos pingados na sala. Contando comigo.
Admito que “Última Parada 174” não é minha escolha pessoal, nem para o Oscar, nem para uma ida ao cinema. Ultimamente tenho afinado com filmes que elevam o espírito e acalentam a alma. E a delicada cena final do filme é o que tenta tornar a condição humana mais palatável. Tentativa vã, já que sabemos de cor que é mera ficção.
Postado por Julia Pierri em 08 de Outubro de 2008 as 15:14
Rê Bordosa Reloaded
Dossiê Rê Bordosa

Título Original: Dossiê Rê Bordosa (Brasil, 2008)
Gênero: Animação / Documentário
Direção: César Cabral Roteiro: César Cabral, Leandro Maciel, Carla Gallo
Elenco:
Angeli (Entrevistado) Laerte (Entrevistado) Grace Gianoukas (Rê Bordosa)
Quem se lembra da Rê Bordosa ficou com saudades. Em 1987, Angeli, o pai da alucinada personagem a matou sem maiores explicações, deixando uma lacuna no universo das charges brasileiras e uma indagação nos corações de seus fãs e admiradores.
Muito sexo, drogas e rock n´roll, além de noitadas insanas pelos bares da vida eram parte do cotidiano da balzaquiana que ficou famosa nas páginas da falecida publicação Chiclete com Banana.
Mas qual foi a razão que levou o cartunista a matar sua mais célebre criação, definida por ele como a legítima porraloca ? Alguns especulam que Rê Bordosa se casou, sossegou o facho e vive feliz e cozinhando para seus pimpolhos, mas outros sustentam que ela foi vítima de um crime bárbaro e misterioso.

É sobre essa hipótese que trabalha o curta-metragem “Dossiê Rê Bordosa”, que tive a sorte de assistir na 3ª edição do Festival de Cinema do Paraná. O curta de César Cabral vêm recebendo as melhores críticas e colhendo os louros da fama desde que estreou.
Uma série de entrevistas com criador e criatura, além de amigos de Angeli e de Rê Bordosa, como o infame Bob Cuspe, procuram jogar uma luz e descobrir pistas sobre o crime que marcou a cena urbana dos anos 80.
Os entrevistados foram transformados em bonecos de massinha e animados por stop motion, criando um efeito hilário sobre as falas originais.
As entrevistas de Angeli, Laerte e outros personagens reais se intercalam com o submundo da ficção e cenas da personagem mais escrachada dos quadrinhos, criando as situações mais improváveis e inverossímeis, além de contar com uma análise psicológica detalhada de criador e criatura.
Impagável interpretação de Grace Gianoukas na voz de Rê Bordosa, em um bar escuro declamando com voz embargada: “Depois das cinco da manhã...faço coisas que até Deus duvida!”
Ao final do curta, ovação geral da platéia por vários minutos, a sensação de alma lavada e triste nostalgia, afinal o sonho acabou.
Postado por Julia Pierri em 14 de Setembro de 2008 as 22:03
Truffaut e o Menino-Lobo

Título Original:L’enfant Sauvage (França, 1969) Gênero: Drama Direção: François Truffaut Roteiro:François Truffaut , Jean Gruault
Elenco:
François Truffaut (Dr. Itard) Jean-Pierre Cargol (Victor) Françoise Seigner (Madame Guerin) Annie Miller (Madame Lemeri) Claude Miller (Monsieur Lemeri)
Outro dia desses fui apresentada à história de Oxana Malaya, através de um documentário televisivo britânico que você pode ver aqui (http://www.mojoflix.com/Video/Oxana-Malaya-The-Feral-Child.html )
A pequena ucraniana foi abandonada pelos pais aos três anos de idade e criada entre uma matilha de cães até ser encontrada por uma vizinha da região, no vilarejo de Navaya Blagoveschenka, na Ucrânia, aos oito anos de idade. Oxana não falava, andava de quatro, latia e comia carne crua, plantas e o que mais encontrasse para sua sobrevivência. Desprovida de qualquer contato humano, se comportava como um cão e não reconhecia sua imagem no espelho.
Foi impressionada e fascinada com este caso de criança selvagem que aproveitei para rever “L’enfant Sauvage”, de François Truffaut. O filme de 1969 é um dos mais sensíveis do diretor da Nouvelle Vague. É a história de Victor de l’Aveyron (Jean-Pierre Cargol), um “menino-lobo” encontrado nas florestas da França e dos esforços de um médico, interpretado pelo próprio Truffaut, intrigado com o caso do garoto para educá-lo. Inspirado em uma história real e nas anotações do Dr. Jean Itard, “Garoto Selvagem” é um filme delicado e essencialmente simples, direto e objetivo, porém de uma profundidade pungente. A atuação de Jean-Pierre como o pequeno selvagem está entre as mais críveis que já vi.
A tentativa bondosa e inconseqüente do médico de “civilizar” Victor resulta em um choque quase que insuportável para o garoto. À medida que o filme se desenvolve, testemunhamos junto com o Dr. Itard as primeiras manifestações de Victor daquilo que nos carateriza como seres sociais. As primeiras tentativas de comunicação verbal, o primeiro esboço de um sorriso.
Esta é uma criança que nunca chorou.
Victor, assim como a grande maioria das crianças selvagens encontradas e trazidas ao convívio humano, nunca se adapta plenamente. Ao contrário, sofre e anseia pela vida selvagem. Se estas crianças não parecem se adaptar ao mundo dos homens, deveriam ter sido deixadas prosseguir com sua existência animal e lúdica? E mesmo se pudessem, seria essa existência mais miserável do que a nossa ? Não há um momento no filme onde o personagem magnificamente interpretado por Truffaut se questiona seriamente a respeito de sua meta. Ele é antes de tudo um estudioso, que acredita piamente na civilização do homem e na vida em sociedade. Para ele, uma criança que se assemelha aos animais da floresta, lutando para sobreviver e matando para comer é quase que um ultraje à condição humana. Uma das características mais intrigantes de Victor é a total falta de uma identidade pessoal. Victor não se enxerga no espelho, nem tem nenhuma idéia de ser um ente separado do todo. Para ele, o mundo físico não passa de uma extensão de seu corpo, onde está totalmente integrado e onde se move com fluidez e instinto. Em uma das cenas mais belas da película, Victor bebe água e olha pela janela, o olhar distante nos campos. Deleita-se com o que restou da sua natureza: sorve a água fresca como se fosse o maior prazer da Terra.
É quase impossível para nós imaginarmos a sensação de total aniquilação do ego, e “Garoto Selvagem” nos mostra essa possibilidade. Sábios, religiosos, místicos, poetas e cientistas têm buscado por isso ao longo de milhares de anos de história,e no entanto, sempre esteve lá. Teríamos nós que desaprender tudo que nos foi ensinado?.
Este é um filme que suscita muitas dúvidas existenciais. Através dos olhos do Dr. Itard, nos perguntamos o que é exatamente que nos torna humanos, e o que isso significa. A pergunta é se o animal biológico homem, privado do contato com outras pessoas é capaz de libertar o espírito humano, tão criativo e inventivo, capaz de maravilhas além dos sonhos mais ousados e também das maiores atrocidades.
Victor derrama suas primeiras lágrimas, e é com assombro que vejo o pequeno selvagem dentro de mim ser domado e domesticado, violentado e privado de seu direito mais essencial: a liberdade.
Postado por Julia Pierri em 15 de Julho de 2008 as 02:23
Viagem ao Centro de Mim

Título Original: Darjeeling Limited (EUA,2007)
Gênero: Comédia
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Jason Shwartzman, Roman Coppola
Elenco:
Owen Wilson (Francis)
Adrien Brody (Peter)
Jason Shwartzman (Jack)
Anjelica Huston (Patricia)
Amara Karan (Rita)
Natalie Portman (Namorada de Jack)
Bill Murray (empresário)
O Diretor Wes Anderson parece ter uma veia especial para tratar da esquisitice e excentricidade humanas. Da mesma forma, tem especial predileção pelos dramas de família e pelos encontros e desencontros que os laços consangüíneos trazem consigo.
Depois dos seus excêntricos Tennenbaums, outra família desequilibrada com a matriarca Anjelica Huston, Wes acerta em cheio com “Viagem a Darjeeling”, que pode ser considerado um sutêntico “rail movie” (a história se passa no Darjeeling Limited, linha de trem que dá nome ao filme).
O diretor consegue extrair o máximo de seus atores, especialmente de Jason Shwartzman, que co-roteirizou o filme, passando muitas de suas experiências pessoais no país dos marajás. De quebra, ainda apresenta ao mundo a estreante Amara Karan. A atriz educada em Oxford é natural do Sri Lanka e não da Índia, mas já vem fazendo sucesso como a comissária sensual do Darjeeling Limited. O curta-metragem “Hotel Chevalier” abre o filme com a participação de Natalie Portman, aliás mostrando generosas porções de pele da atriz que satisfez os fãs mais ardorosos. É uma espécie de prévia do filme, com alguns elementos e conexões que o espectador mais atento irá encontrar no longa-metragem que segue.
Imagine uma jornada de trem em família através da Índia, para encontrar-se consigo mesmo e com destino à terra do chá no sopé dos Himalaias. É o que fazem Francis (Owen Wilson), Peter (Adrien Brody) e Jack (Jason Shwartzman), três irmãos americanos que decidem viajar juntos para uma viagem de auto-conhecimento e também para resgatarem os laços familiares, frágeis após uma série de desentendimentos que seguem a morte do pai. Eles pretendem terminar a viagem em Darjeeling, onde a mãe (Anjelica Huston) tornou-se freira e vive de forma monástica. Enfim, uma família saudavelmente neurótica como qualquer outra. No meio do caminho, as coisas desandam e nada sai como o planejado. De uma hora pra outra, os irmãos se vêem no meio do deserto, carregando apenas o conjunto de malas do falecido pai, algumas penas de pavão e muitas incertezas.
E é exatamente aí, no inesperado, que a Índia se revela aos viajantes, como uma mulher que finalmente deixa cair seus véus para finalmente mostrar toda sua beleza e sensualidade, como uma mãe sábia que sabe ser amorosa e severa ao mesmo tempo, como a irmã forte que ampara no meio do caminho.
O diretor Wes Anderson capta com grande sensibilidade o espírito de milhares de viajantes que chegam à Índia todos os anos imbuídos de espírito de aventura e de muita coragem, necessária para se confrontar com seus próprios fantasmas interiores. Apesar disso, o filme é repleto de boas risadas e situações pra lá de insólitas. Inacreditavelmente, as situações mais insólitas acontecem na Índia e nos parecem perfeitamente plausíveis. É simplesmente uma característica do país onde tudo pode acontecer. É um dos melhores filmes de 2007 na opinião desta espectadora, que se identificou com o filme do começo ao fim.
Agora, uma nota pessoal: Lembro-me de estar sozinha em um trem que ia de Pushkar, no Rajastão para Bombay, ou hoje Mumbai, para pegar meu vôo de volta ao ocidente depois de nove meses de descobertas intensas, revelações espetaculares, alegrias que carrego até hoje e confrontos com dores e tristezas há muito tempo acalentadas por mim. Olhando pela janela do trem, chorei. Chorei já de saudades da Índia, chorei de alegria. Principalmente, chorei de gratidão.
Postado por Julia Pierri em 26 de Junho de 2008 as 17:33
Fim dos (Bons) Tempos

Título Original: The Happening (EUA,2008)Gênero: Drama/SuspenseDireção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco:
Mark Wahlberg (Elliot Moore)Zooey Deschanel (Alba Moore)John Leguizamo (Julian)
Mesmo com sua curta filmografia, M. Night Shyamalan nunca deixou de impressionar. Seus filmes tem uma espécie de atração inexplicável para o público que se deixa levar por um mundo sobrenatural e imaginativo, que quase sempre revela uma surpresa no final.
Em “Fim dos Tempos” o diretor indiano finalmente perde a mão, algo que era prenunciado por críticos sempre à espera de um filme à altura de “O Sexto Sentido” e pelo fracasso de crítica de "A Vila" e "Sinais".
O começo é impressionante. Inexplicavelmente e sem aviso, pessoas no Central Park começam uma onda de suicídios sem razão nem motivo aparente. É verdadeiramente assustador. Aparentemente, o estranho fenômeno é causado por uma toxina, que carregada pelo ar afeta a região de cérebro responsável pelo instinto de auto-preservação. O filme foca em um grupo de personagens que busca fugir do vento mortífero, liderados pelo professor Elliot Moore, interpretado pelo sempre razoável mas sem sal Mark Wahlberg.
Na verdade, o filme não diz a que veio nem o que pretende. Nem de longe os personagens são tão bem construídos como em “A Dama na Água”, que na minha opinião é sua melhor obra. A impressão que dá é que apenas ao personagem do Mark Wahlberg foi dedicado um pouco de atenção e profundidade, e Zooey Deschanel como sua esposa está impagável com uma expressão de “que que eu to fazendo aqui? ?” Ela parece estar no filme errado do começo ao fim. John Leguizamo interpreta seu amigo e colega de trabalho que embarca na fuga com o casal e com sua filhinha de oito anos, Jess. É um ator carismático, e no entanto extremamente mal-aproveitado com diálogos absolutamente superficiais sobre equações e enigmas matemáticos. Pois é.
Espectadores indecisos e decepcionados saem do cinema frustrados, quase que invariavelmente. Percebi isso já que estive em duas sessões. Mesmo assim, em defesa de Shyamalan, ainda existe um apelo indefinível, que se tornou sua marca registrada. Talvez seja o fato de como um amigo bem comentou, ele tratar sempre de alguma ameaça invisível, seja ao corpo ou ao espírito. Ora são os mortos, ora são alienígenas e dessa vez, uma toxina letal.
Shyamalan parece não se importar muito com os críticos, até porque invariavelmente suas obras são alvo de comentários negativos, provavelmente porque ele costuma ir além do mero entendimento superficial e linear da trama. Em “A Dama na Água”, um dos melhores personagens do filme faz um crítico de cinema (espécie eternamente crica e retratada por ele como um chato de galochas) que é devorado por um monstro durante uma festa. Uma pequena e inofensiva vingancinha, talvez. E quem pode julgá-lo?