Postado por Julia Pierri em 29 de Maio de 2008 as 13:28
Demônios na Escandinávia

Título Original: Beowulf (EUA,2007)
Gênero: Ação/Aventura/Animação
Direção: Robert Zemeckis
Elenco:
Ray Winstone (Beowulf, dragão)
Anthony Hopkins (Hrothgar)
John Malkovitch (Unferth)
Crispin Glover (Grendel)
Angelina Jolie (Mãe de Grendel)
Chegou Beowulf nas locadoras.Eu confesso. Já tinha visto no cinema, em uma sessão repleta de adolescentes que clamavam por sangue e Angelina. Beowulf é um filme que mistura tudo que normalmente me faz sair correndo: animação digital com ar de artificial, poema épico e assombro dos assombros, o Anthony Hopkins pelado! O Diretor Robert Zemeckis já se aventurou nessa técnica de animação digital que empresta as características dos atores no aclamado “Expresso Polar”, e o resultado...bem, o resultado é que em muitos momentos, a animação ainda não convence. Tá certo que “Beowulf” foi originalmente concebido para ser visto em 3-D, o que dizem ser uma experiência cinematográfica totalmente diferente, mas seria bem mais interessante se mais cidades fora do eixo Rio-São Paulo tivessem salas de cinema próprias para esse tipo de exibição.
Bem, vamos ao filme: o herói de nome impronunciável é um guerreiro escandinavo que viaja até o reino do Anthony Hopkins para derrotar Grendel – uma criatura que, atormentada por um eterno mau-humor, resolve matar e comer umas centenas de pessoas cada vez que o rei dá uma festa no seu salão. O demônio é também filho da Angelina Jolie, cuja voz aparece logo no início e que só vemos lá pelas tantas no filme, o que causa o maior suspense na história, afinal, tudo o que todos queriam era ver como ela ficaria de demônia escandinava digitalizada. Linda, como sempre. Biiiig Surprise. O pobre do rapaz é filho da beldade mas é feio que dói, e dá até pra simpatizar um pouquinho com ele, considerando o tamanho do seu complexo. Em tempo, já que estamos falando de Grendel: o original Beowulf é um poema épico escrito em inglês antigo e um marco na literatura medieval, que diz-se, inspirou Tolkien a escrever “O Senhor dos Anéis”. Grendel, fala, e fala em inglês arcaico. Conseguimos entender mais ou menos 60% do que ele diz para poder deduzir o resto. O sotaque e a entonação estão perfeitos, assim como os de sua mãe.
Enfim, Beowulf chega lá e encara o monstrengo na raça. Ou seria melhor dizer em pêlo? É que o lourão decide que quer derrotar o monstro em pé de igualdade, ou seja, nu em pêlo e apenas com sua força. Muito mais interessante que a batalha entre o guerreiro e o demônio, são os malabarismos e piruetas do diretor para esconder a “espada” do herói. É que é um filme para adolescentes, então é melhor fingir que os órgãos sexuais não existem, sabe. Prestei bastante atenção para ver se os animadores não deixavam escapar um pentelhímetro de pele das partes pudicas do herói como brincadeira mas eles foram irredutíveis: nu frontal, só mesmo da Angelina, que ela dá mais ibope. Nosso herói Beowulf se mostra como um homem mortal, com falhas e que sempre aumenta alguns pontos em suas histórias de heroísmo e bravura. Ele pode ser corajoso, mas é também um egocêntrico sem tamanho e sem muita integridade, já que sucumbe a toda e qualquer tentação, principalmente aos da mãe do bebezão gosmento Grendel.
Conclusão: Nunca, em nenhuma época, homem algum irá resistir aos encantos da Angelina Jolie, mesmo que ela vire um dragão escamado e depois tente empalar ele vivo!
Postado por Julia Pierri em 26 de Maio de 2008 as 12:58
The Wild Angels

Sua Fé é a Violência, seu Deus é o ódio
Título Original: The Wild Angels (EUA,1966)
Direção: Roger Corman
Roteiro: Peter Bogdanovich e Charles B. Griffith
Estúdio: American International Pictures (AIP)
Elenco:
Peter Fonda (Heavenly Blues)
Bruce Dern (Mike)
Nancy Sinatra (Jack)
Diane Ladd (Gaysh)
Três anos antes de Peter Fonda marcar uma geração com Easy Rider, o diretor Roger Corman trazia o primeiro de uma série de Biker Movies. Para quem se aventurou através da América com Wyatt e Billy, “The Wild Angels” irá evocar toda uma gama de sensações.
Peter Fonda e Bruce Dern são uma dupla de motoqueiros integrantes do Hells Angels da Califórnia que atende pelos nomes geniais de Heavenly Blues e The Loser. Com nomes desses, quem precisa de Harleys?
A seqüência de abertura de “Wild Angels”, com o garotinho de triciclo que encontra Heavenly Blues em sua Harley Davidson é genial, e apenas um prelúdio para outros momentos cheios de inspiração, embora essa seja sem dúvida a melhor cena do filme.
O filme traça um retrato bastante fiel do Hells Angels, uma gangue de motoqueiros famosa por se considerarem foras-da-lei e totalmente marginalizados pela sociedade. Os Angels marcaram os anos 60 com uma bandeira que pregava a liberdade, a ousadia e a total desobediência civil, em uma época de profundas incertezas com uma juventude desiludida por falsas promessas. Como pano de fundo, a guerra do Vietnã. Não que isso seja parte integrante do filme, mas em determinado momento da história onde a tensão se acumula cada vez mais, Mike liga o rádio e escuta uma notícia sobre um ataque aos vietcongues.
Um episódio famoso envolvendo o Hells Angels foi quando eles foram contratados pela banda Jefferson Airplane e pelos Rolling Stones a fazer a segurança do Altamont Free Concert, em 1970. Diz a lenda que o pagamento seria um caminhão abarrotado de cerveja. Despreparados para lidar com o público, armados e ainda embalados por drogas e rock n´roll durante um dia inteiro, os Angels se envolveram em um conflito com os espectadores que resultou em muitos feridos e quatro mortos. Por aí já dá para ter uma noção de que eles não eram de brincadeira. Aliás, este episódio está muito bem retratado no documentário Gimme Shelter, de 1970, que mostra a turnê de 1969 dos Stones, o evento de Altamont e uma seqüência interessantíssima onde os Stones assistem a tudo depois e refletem sobre o acontecido.
Quando o grupo de motoqueiros aparece junto pela primeira vez, há apenas a estrada e a amplidão esmagadora do céu no deserto da Califórnia. O vento na cara, a estrada que chama. Isso dura alguns instantes, até que logo aparece um policial. Já naquela época a fama dos bikers era notória, então ele logo avisa pelo rádio que os “Angels” estão indo para o sul.
Ao tentar resgatar a moto roubada de Loser numa cidade do México, o grupo de motoqueiros liderado por Blues é perseguido por policiais e Loser é baleado. Começa então uma mega-operação para resgata-lo do hospital e impedir que ele vá para o xadrez.
A trama central da história não é tão cativante quanto os inúmeros elementos que tornam este um grande filme. Está tudo lá: os olhos azuis de Peter Fonda (celestiais, como o nome sugere), Nancy Sinatra de mini-saia no papel de Mike, a namorada do motoqueiro que acompanha o líder por onde ele vá, Bruce Dern como Loser e outra beldade da época, Diane Ladd, interpretando sua esposa. Nem todas as interpretações são notáveis, e as garotas parecem servir apenas ao propósito de decoração. Diane Ladd exerce um papel muito mais interessante no filme que Nancy Sinatra, mostrando como as mulheres poderiam sofrer no meio desses “anjos” do asfalto.
Na verdade, todos os personagens de “Wild Angels” são desprovidos de qualquer senso moral. Tudo isso é recheado daquilo que não poderia faltar: muito sexo, drogas e Rock n´ Roll e um inconformismo dos grandes. Tudo se move num ritmo tão alucinadamente surreal, que Loser no momento da sua morte só deseja ficar doidão e pede por uma baseado (no que é prontamente atendido). Em alguns momentos do filme você se pergunta se parte dessa geração realmente era realmente daquele modo. O desespero humano e a falta de esperança é latente quando você vê um grupo de pessoas que só quer ir contra tudo e contra todos, numa última e auto-destrutiva tentativa de ter as rédeas sobre a própria vida. Nesse ponto o filme atende às expectativas e faz o que se propõe, mas com a crueza das conseqüências de algumas péssimas escolhas dessa geração. Não é um filme para os fracos, muito menos para os moralistas. A estranheza e perturbação do espectador seguem num crescendo até o clímax macabro que tornou o filme amado e odiado, mas você não vai ler nada aqui para não estragar a surpresa.
De certa forma, a popularidade de “Wild Angels” se deve em grande parte a esse sonho não-realizado, o mesmo apelo que as gerações beat e hippie mantém até hoje em alguns poucos corações. Quem não sonhou em ser um fora-da-lei? Quem nunca se sentiu tão opressivamente esmagado pelo sistema que quis jogar tudo para o alto, mudar o mundo e desafiar quem quer que fosse?
Okay, talvez nem todos. Mas eu ainda secretamente alimento este devaneio, tanto quanto sentir as emoções de ser o dono do seu próprio destino. Não basta viver, há de se viver perigosamente. Não deixo de alimentar a crença sincera de que todos nós ansiamos por liberdade, por quebrar as regras e seguir apenas a batida do coração e a direção do vento.
Postado por Julia Pierri em 22 de Maio de 2008 as 00:29
Segregação, União e Laquê

Direção: Adam Shankman
Roteiro: Leslie Dixonl
Produção: Neil Meron e Craig Zadan
Música: Marc Shaiman
Fotografia: Bojan Bazelli
Elenco
John Travolta (Edna Turnblad)
Michelle Pfeiffer (Velma Von Tussle)
Christopher Walken (Wilbur Turnblad)
Amanda Bynes (Penny Pingleton)
Queen Latifah (Motormouth Maybelle)
Zac Efron (Link Larkin)
Em Busca da Fama conta a história da jovial e cheia de energia Tracy Turnblad, cujo maior sonho é dançar na TV em um programa "para os garotos mais legais da cidade". Acontece que a carismática Tracy é, por assim dizer, uma protagonista de peso! Surpreende já nas primeiras cenas pelo seu talento, mas principalmente por não ser a heroína com a qual estamos acostumados.
Com seus quilos a mais, Tracy sente na pele o que é ser discriminada por sua aparência. Para piorar o cenário, o pano de fundo é a Baltimore dos anos 60, que apesar do glamour do sonho americano e litros de laquê, é manchada pela lamentável discriminação e segregação racial, o que torna o filme um lamento de todos aqueles que se vêem fora dos rígidos padrões impostos pela sociedade
Com um elenco impecável, Hairspray conta com o esquisito, porém talentoso Cristopher Walken, como o pai de Tracy, a beldade Michelle Pfeiffer no papel da asquerosa Velma, a diretora prega os melhores valores 'brancos" e Queen Latifah como Motormouth Maybelle, a própria voz do orgulho negro. No elenco também está o mais jovem galã de Hollywood, aquele por quem as adolescentes suspiram: Zac Ephron, o fenômeno de High School Musical, numa interpretação mais madura, e finalmente com a voz estabilizada, depois da tempestade hormonal que geralmente acomete os moçoilos na puberdade.
Ao invés de nos tentar fazer rir de piadinhas jocosas sobre drags ou apelar para o exagero escrachado, Travolta convence como uma doce e ingênua dona de casa, e suas cenas com o marido Cristopher Walken são comoventemente verdadeiras. Nada mau para um ator que teve o auge do sucesso interpretando um matador à sangue-frio em Pulp Fiction – Tempos de Violência.
Quem viu a versão original do diretor John Waters, de 1988, entende a escolha do diretor Adam Shankman. É que no filme original, o papel ficava com a famosa travesti Divine, causando furor no meio artístico.
Bem, a cheinha Tracy acaba por fisgar o Zac, o garoto mais popular do colégio, para alegria e redenção de todas aquelas com curvas a mais na silhueta (incluindo aquela que vos fala). Ela se torna amiga dos negros da cidade, que possuem a melhor dança. Tudo acaba bem, certo?
Hairspray é bonito, despretenciosamente tocante e até mesmo inspirador...porém onde estão as Tracy Turnblads nos Big Brothers da vida em pleno 2008? Numa época onde cirurgias plásticas, dietas da moda e silicone estão cada vez mais onipresentes, o que mudou? Para ser celebridade hoje em dia, basta ser loira, magra, e estar em um Reality Show.
Quem sabe ainda podemos sonhar com a frase de Corny Collins, o apresentador do Show dos sonhos de Tracy: Este é o Futuro.
Onde os excluídos são integrados, onde dançamos ao som das dificuldades, onde não existem barreiras para aqueles que ousam ser diferentes.
Postado por Julia Pierri em 21 de Maio de 2008 as 23:53
Onde Tudo Começou

Paris, dezembro de 1895. É o pico do rigoroso inverno europeu, e no centro de Paris, mais exatamente no bucólico Boulevard des Capucines, centenas de homens, mulheres e crianças se acotovelavam em filas em frente ao Grand Café, cheios de pulsante curiosidade. Para entrar, pagavam 1 franco e desciam as escadas até o subsolo, onde no Salão Indiano 100 cadeiras se enfileiravam diante de um pano branco estendido na parede. Sobre ele, seriam projetadas as primeiras e mágicas imagens em movimento, registradas pelas câmeras de Auguste e Louis Lumière, apenas curtos filmes mudos em preto-e-branco.
Quando o público atônito viu a primeira exibição do filme que ficou conhecido como “A Chegada do Trem”, houve a primeira grande comoção da história do cinema, que veio a se repetir por muitas e muitas vezes na história deste invento revolucionário. A filmagem em questão havia sido feita na estação de La Ciotat, num trajeto do trem Paris-Lyon-Marseille, e a câmera filmava toda a ação do trem chegando em direção aos espectadores. Diz a lenda que foi um deus nos acuda. Uns fugiam em desespero, outros se escondiam debaixo das cadeiras e alguns ainda desmaiavam ou ficavam paralisados, convencidos de que o monstro de vapor iria esmaga-los em sua chegada triunfal.
Mesmo sem a emoção original, o cinema continua despertando todo o espectro das emoções humanas. Você se lembra da primeira vez que esteve em uma sala de cinema? Lembra qual era o filme? Talvez você só conheça a experiência do Multiplex. Mas talvez você seja do tempo em que as salas de cinema não ficavam dentro dos shoppings, tinham sala de espera e até uma bombonière. Se a sessão estava lotada, sem problemas. Sempre dava pra achar um lugarzinho no corredor ou nas escadas, de preferência bem na frente.
Este blog nao tem nenhuma pretensão. Mas tem a intenção de discutir bons filmes, de ampliar nossos horizontes e de ser um lugar para novas descobertas, sejam do cinema, da literatura, do espírito.