Postado por Julia Pierri em 26 de Junho de 2008 as 17:33

Fim dos (Bons) Tempos

 

Título Original: The Happening (EUA,2008)Gênero: Drama/SuspenseDireção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

 

 

Elenco:

  Mark Wahlberg (Elliot Moore)Zooey Deschanel (Alba Moore)John Leguizamo (Julian)

 

Mesmo com sua curta filmografia, M. Night Shyamalan nunca deixou de impressionar. Seus filmes tem uma espécie de atração inexplicável para o público que se deixa levar por um mundo sobrenatural e imaginativo, que quase sempre revela uma surpresa no final.

 

 

Em “Fim dos Tempos” o diretor indiano finalmente perde a mão, algo que era prenunciado por críticos sempre à espera de um filme à altura de “O Sexto Sentido” e pelo fracasso de crítica de "A Vila" e "Sinais".  

O começo é impressionante. Inexplicavelmente e sem aviso, pessoas no Central Park começam uma onda de suicídios sem razão nem motivo aparente. É verdadeiramente assustador. Aparentemente, o estranho fenômeno é causado por uma toxina, que carregada pelo ar afeta a região de cérebro responsável pelo instinto de auto-preservação. O filme foca em um grupo de personagens que busca fugir do vento mortífero, liderados pelo professor Elliot Moore, interpretado pelo sempre razoável mas sem sal Mark Wahlberg. 

 

 

Na verdade, o filme não diz a que veio nem o que pretende. Nem de longe os personagens são tão bem construídos como em “A Dama na Água”, que na minha opinião é sua melhor obra. A impressão que dá é que apenas ao personagem do Mark Wahlberg foi dedicado um pouco de atenção e profundidade, e Zooey Deschanel como sua esposa está impagável com uma expressão de “que que eu to fazendo aqui? ?”  Ela parece estar no filme errado do começo ao fim. John Leguizamo interpreta seu amigo e colega de trabalho que embarca na fuga com o casal e com sua filhinha de oito anos, Jess. É um ator carismático, e no entanto extremamente mal-aproveitado com diálogos absolutamente superficiais sobre equações e enigmas matemáticos. Pois é.

 

 

Espectadores indecisos e decepcionados saem do cinema frustrados, quase que invariavelmente. Percebi isso já que estive em duas sessões. Mesmo assim, em defesa de Shyamalan, ainda existe um apelo indefinível, que se tornou sua marca registrada. Talvez seja o fato de como um amigo bem comentou, ele tratar sempre de alguma ameaça invisível, seja ao corpo ou ao espírito. Ora são os mortos, ora são alienígenas e dessa vez, uma toxina letal.  

 

Shyamalan parece não se importar muito com os críticos, até porque invariavelmente suas obras são alvo de comentários negativos, provavelmente porque ele costuma ir além do mero entendimento superficial e linear da trama. Em “A Dama na Água”, um dos melhores personagens do filme faz um crítico de cinema (espécie eternamente crica e retratada por ele como um chato de galochas) que é devorado por um monstro durante uma festa. Uma pequena e inofensiva vingancinha, talvez. E quem pode julgá-lo?   

 

Postado por Julia Pierri em 03 de Junho de 2008 as 20:34

Gabo nos Tempos do Multiplex

 

Dica - DVD

 

Título Original: Love in the Time of Cholera (EUA,2007)

Gênero: Drama, Romance

Direção:  Mike Newell

Roteiro: Ronald Harwood (adaptação do livro de Gabriel García Márquez)

 

 

 

Elenco: 

 

Javier Bardem (Florentino Ariza)Giovanna Mezzogiorno (Fermina Daza)Benjamin Bratt (Dr. Juvenal Urbino)Fernanda Montenegro (Transito Ariza)  

 

 

 

Quando era apenas uma adolescente, Luíza Márquez conheceu o telegrafista e poeta Gabriel Elígio Garcia e se deixou levar por uma paixão arrebatadora. O pai da jovem, no entanto, se opôs fortemente ao inconsequente devaneio juvenil e afastou a moça do convívio da sociedade por mais de um ano, levando-a em uma longa viagem pelo interior da Colômbia. Para manter o contato com sua amada, Gabriel montou uma extensa e clandestina rede de comunicação via telégrafo, e com a ajuda de amigos, continuou falando com Luiza até seu retorno. Essa é a parte real da história. Dessa união, nasceu Gabriel Garcia Márquez, um dos maiores escritores modernos e ganhador do prêmio Nobel de literatura. 

 

Lembro de que ao ler “O Amor...” pela primeira vez, aos 15 anos, pensei que nunca ninguém havia sido tão romântico, nem mesmo Romeu e Julieta. É a história de um homem que espera por sua amada por mais de cinco décadas, até que ela finalmente aceite sua jura de amor eterno e incondicional. 

 

Mike Newell, o diretor, já fez algumas coisas dignas de nota, como “Quatro Casamentos e Um Funeral”, e até dirigiu um Harry Potter. Mas filmar Gabo em inglês chega a ser quase uma heresia. Assim como o cenário, a língua espanhola está tão presente e entranhada em todos os aspectos do livro, que poderia ser quase uma personagem em si. Essa mania dos estadunidenses de traduzir tudo para sua língua é um tantinho irritante (o Mike Newell é inglês, mas os filmes são produzidos já pensando nos prêmios da academia). “Sombras de Goya” em inglês perdeu metade da alma do filme (aliás com o mesmo Javier Bardem falando com sotaque), e as refilmagens cena a cena de grandes filmes como “Abre los Ojos” (Vanilla Sky) ou o horror japonês “Ringu” (O Chamado) não chegam nem aos pés dos originais.

 

 

O pano de fundo deste romance é uma atração à parte.Tudo se passa em um universo fantástico de Gabo, inspirado na sua querida Cartagena das Índias, na Colômbia. 

 

 

 O filme foi bem-recebido no Brasil, já que a veterana Fernanda Montenegro interpreta uma personagem-chave, pelo menos na versão literária. Fernanda desempenha seu papel com alma e paixão e se entrega sem reservas a uma das melhores atuações do filme.  Javier Bardém não deixa a desejar e interpreta um homem sensual, misterioso e seguro de si, embora passe uma vida obcecado por conquistar o amor de uma única mulher...decididamente, os tempos mudaram!

 

Falando na protagonista, se não fosse pelo livro onde Fermina Daza era uma mulher forte e encantadora, com uma presença única, não saberíamos o que o bonitão espanhol viu nela. A atriz italiana Giovanna Mezzogiorno é bela, porém inexpressiva. No filme, passa a impressão de puramente antipática.

 

Agora vem cá...quero a receita de beleza dessa moça. Na história se passam cinqüenta anos e a garota não ganha sequer uma linha de expressão! Há um choque, é verdade, quando a protagonista se despe pela primeira vez no filme e já está com mais de setenta anos. É uma cena corajosa e bela sem ser vulgar, essencial na versão cinematográfica, já que no original é um dos momentos mais delicados da história. No filme, assim como no livro, Fermina repudia seu amante com a frase: “Tenho cheiro de gente velha”.

 

 

O ingresso (ou agora, a locação) vale à pena, e verti litros de lágrimas a cada cena do filme.

 

 

   Só estranhei um pouco o fato de entrar no universo do realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez, das cores e sons da Colômbia e de repente sentir cheiro de pipoca e sair da sessão direto para a fila do caixa do estacionamento no Multiplex. É...ir ao cinema não é a mesma experiência de alguns anos atrás. Para mim, Gabo será sempre Gabo, o amor será sempre o amor, e cinema será sempre sem pipocas.
 

Perfil

"Kiss Kiss Bang Bang" foi a frase escolhida pela divina Pauline Kael para designar o apelo básico dos filmes hoje em dia: muita ação, e um romancezinho no meio para descer melhor. O mesmo acontece com os produtos culturais. Em tempos de cultura fast-food e tantas informações, Julia Pierri encontra e indica pequenas pérolas e preciosidades do cinema.

 

Julia Pierri é apaixonada por cinema. jupierri@gmail.com